
Rascunho do RRF confirma medidas amargas para servidor mineiro
Sindicatos de todo o Estado estão se organizando para travar batalha na ALMG contra os prejuízos propostos ao funcionalismo pelo Governo Zema
As dificuldades impostas pelo Regime de Recuperação Fiscal (RRF) ao Rio de Janeiro, único estado que aderiu a essa proposta do governo federal, foram um dos argumentos mais repetidos na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), nesta segunda-feira (18/11/19), contra o projeto de lei do governador Romeu Zema que propõe o mesmo ajuste fiscal para a população mineira.
A adesão de Minas Gerais ao Regime de Recuperação Fiscal foi proposta pelo governador por meio do Projeto de Lei (PL) 1.202/19, recebido pela ALMG em 10 de outubro. Nesta segunda-feira, a Comissão de Administração Pública realizou audiência pública para debater alternativas a essa proposta. Autora do requerimento para realização da reunião, a deputada Beatriz Cerqueira (PT) afirmou que o PL 1.202/19 já conta com a oposição de muitos parlamentares, convencidos de que ele só agrava os problemas do Estado.
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Privatização de empresas públicas com possível aumento de tarifas de energia e abastecimento de água; proibição de concursos públicos, com prejuízo para os serviços prestados à população; falta de alternativas para ampliação de receitas e comprometimento da arrecadação futura, que pode ser tomada como garantia da dívida de Minas com a União. Essas são algumas imposições do Regime de Recuperação Fiscal, segundo os participantes da reunião, que tornam a proposta inaceitável e lesiva aos interesses de toda a população mineira.
Na mensagem do governador que acompanhou o PL 1.202/19, são citados dados da Secretaria do Tesouro Nacional que apontam a condição financeira de Minas como a mais grave entre os estados, com comprometimento de 50% da Receita Corrente Líquida com restos a pagar.
No texto, o governador argumenta que é impossível uma solução baseada puramente em esforços internos, por entender que seriam insuficientes. A adesão ao RRF, segundo ele, permitirá a suspensão temporária do pagamento da dívida com a União, hoje suspensa apenas por liminares, e a contratação de empréstimos pelo Estado.
Para os participantes da audiência pública desta segunda, no entanto, a suspensão do pagamento da dívida mineira está longe de ser uma compensação adequada às medidas amargas impostas à população.
Coordenador-geral do SINDSEMPMG, Eduardo Amorim
“Esse é um projeto para resolver o problema de Minas ou para resolver o problema desse governo?”, questionou o segundo vice-presidente do Sindicato dos Servidores da Justiça de Primeira Instância de Minas Gerais (Serjusmig), Eduardo Couto. “Isso é vender a casa para pagar aluguel”, afirmou a coordenadora-geral do Sindicato Único dos Trabalhadores em Educação de Minas Gerais (Sind-UTE/MG), Denise Romano.
Participantes sugerem alternativas de arrecadação
No início da reunião, o economista Frederico Barbosa de Melo, do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), fez um resumo do RRF. “São sete obrigações para o Estado, 12 proibições, duas obrigações adicionais e criação de um conselho com dez atribuições”, afirmou Melo, salientando o prejuízo que algumas dessas regras impõem, tais como a proibição de o Estado questionar judicialmente a dívida com a União.
Frederico Melo lembrou que muitos estados estão em grave situação fiscal, mas apenas o Rio de Janeiro aderiu ao RRF. “Aderiu e já está pedindo a revisão, porque não conseguiu cumprir as metas”, afirmou.
De acordo com o economista, a proposta federal não é solução estrutural para o Estado porque não ataca as duas principais causas do desequilíbrio fiscal de Minas: a dívida com a União e a falta de financiamento para os serviços de saúde, educação e segurança, decorrentes da concentração de receita nas mãos do governo federal. “Se aprovado, esse regime é uma servidão voluntária ao governo federal”, criticou.
Algumas alternativas foram citadas para melhorar a situação financeira do Estado, sem aprovar o RRF. O presidente do Sindicato dos Servidores da Tributação Fiscalização e Arrecadação de Minas Gerais (Sinffazfisco), Hugo René de Souza, sugeriu acabar com a isenção de ICMS para a exportação do nióbio, uma vez que Minas é o único produtor mundial desse minério. “Excluir apenas o nióbio (dessa isenção) renderia R$ 2 bilhões anuais para o Estado”, afirmou Souza.
A deputada Andréia de Jesus (Psol) defendeu a taxação da mineração. “A mineração acaba com o Estado e não traz retorno”, declarou ela, referindo-se às mortes e prejuízos causados pelo rompimento das barragens de rejeito de minério, em Mariana (Região Central) e Brumadinho (Região Metropolitana de Belo Horizonte).
O coordenador-geral do Sindicato dos Servidores da Justiça de 2ª Instância do Estado de Minas Gerais (Sinjus/MG), Wagner Ferreira, sugeriu aumentar a alíquota do Imposto sobre Transmissão Causa Mortis e Doação (ITCD) de 5% para 8%. “É um imposto sobre a herança, que atinge uma parcela pequena da população, e renderia R$ 600 milhões por ano”, afirmou Ferreira, lembrando que outros estados já cobram 8%.
Outra proposta citada, que já foi defendida antes por deputados e sindicalistas, é a auditoria da dívida com a União e acerto de contas com o governo federal, cobrando as compensações da Lei Kandir, que isentou de ICMS a exportação de minérios e grãos. Também foi sugerida uma revisão dos benefícios fiscais concedidos a setores econômicos.
Vice-líder do governo defende ajuste proposto
O vice-líder do governo na ALMG, deputado Guilherme da Cunha (Novo), afirmou que o Regime de Recuperação Fiscal é o caminho para evitar que o Estado seja obrigado a promover um corte de mais de 40% em sua folha de pessoal. O fato de apenas o Rio de Janeiro ter aderido ao ajuste, segundo ele, se deve ao fato de que poucos estados apresentam um desequilíbrio fiscal tão acentuado. “O Regime de Recuperação Fiscal é quase a UTI dos estados. Só o Rio de Janeiro, Minas e o Rio Grande do Sul se qualificam para isso”, afirmou o deputado.
Guilherme da Cunha garantiu ser falso que o RRF impeça concurso público. Ele afirmou que a proposta permite, desde que seja para preencher vacância. As alternativas propostas durante a audiência pública, em sua avaliação, ou são questões que dependem de negociação ou regulação federal, como a tributação de minérios, ou já estão incluídas na proposta de ajuste, como a revisão dos benefícios fiscais.
O deputado Raul Belém (PSC) disse estar preocupado com a experiência do RRF no Rio de Janeiro, mas também com o mau resultado da privatização em outros estados, tais como a venda da estatal de energia de Goiás. O deputado afirmou que a Enel, empresa privada que assumiu a distribuição de energia no estado vizinho, tem um péssimo desempenho, e que é preciso evitar que o mesmo aconteça com a Cemig.
O deputado Virgílio Guimarães (PT) e o deputado federal Rogério Correia (PT-MG) também condenaram a proposta de privatização da Cemig. Virgílio Guimarães também defendeu que os direitos minerários da empresa Vale sejam retomados pelo poder público e novamente leiloados. “Isso poderia render R$ 36 bilhões”, estimou. Essa retomada é justa, segundo ele, em função das ações da empresa que levaram à tragédia em Brumadinho.
Fonte: ALMG
Publicado em 20/11/2019 às 13:23Sindicatos de todo o Estado estão se organizando para travar batalha na ALMG contra os prejuízos propostos ao funcionalismo pelo Governo Zema
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