Previdência: governo não aceita recuar em paridade e pode alterar transição para servidores
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Empresários estão se desligando da realidade e desenvolvendo dissonância cognitiva para justificar o projeto do governo
Caro leitor, desculpe o desabafo, mas não dá mais para ouvir empresários dizendo que haverá uma “bandeira de largada” nos investimentos e que tudo vai melhorar no país quando sair a Reforma da Previdência. É uma balela, um engodo. Só mesmo a antológica hipocrisia brasileira para criar a panaceia de que uma mudança nas aposentadorias é capaz de atrair uma avalanche de capitais e virar a página da economia num passe de mágica.
Papai Noel não existe, embora haja quem se vista como ele e distribua presentes no Natal. Do mesmo modo, não haverá um milagre no Brasil só porque o governo e os empresários que o apoiam estão a delirar sobre o impacto das novas regras previdenciárias. A reforma que está saindo do Congresso pode melhorar as contas fiscais por um tempo. E só. Nada mais.
Os que tratam a nova previdência como o santo graal da economia são os mesmos que em 2017 previam um festival de empregos com a reforma trabalhista. Isso não aconteceu. Até agora as novas leis trabalhistas mais serviram para as empresas precarizarem o trabalho e reduzirem o salário. Mas a promessa foi reciclada: os reformistas passaram a difundir a ilusão de que a nova previdência vai trazer os investimentos para gerar os empregos que a trabalhista não provocou. Uma panaceia substitui a outra. E segue a ilusão.
Por que tanto devaneio em torno de uma reforma? Bom, nesses tempos malucos em que vivemos os fatos perdem facilmente a credibilidade para as fantasias mais estapafúrdias – desde que agradáveis. E os eleitores do presidente precisam se apegar a algum argumento, por mais inconsistente, para manter a fé no governo. Palavras de um deles, Elie Horn, fundador da Cyrela, uma das maiores incorporadoras do Brasil: “Tudo vai no bom caminho. O único problema agora é a Reforma da Previdência. Passando, acabaram os problemas macros”, disse ele à imprensa neste fim de semana.
O despautério de Horn é compartilhado por boa parte da elite econômica nacional, que vai se descolando da realidade no esforço de justificar a opção pelo governo atual e evitar reconhecer que o projeto ultraliberal não está dando certo.
A negação da realidade no empresariado chegou ao ponto de se ignorar o óbvio ululante. Mais uma vez o exemplo de desfaçatez é do fundador da Cyrela: ele chegou a dizer que a instabilidade renitente no país há 5 anos não passa de “intempéries políticas” e um “problema menor”. Em que planeta ele vive? Ora, no mundo dos brasileiros muito ricos e isolados da realidade do grosso da população. E olha que ele é um dos maiores filantropos do país, dedicado a projetos contra a prostituição infantil e disposto a doar 60% de seu patrimônio bilionário em vida.
No entanto, o que acontece é o contrário do que o Sr. Horn enxerga. São as “intempéries” políticas que vêm afugentando o capital estrangeiro, ano após ano, ao gerar instabilidade e consequentemente insegurança em relação ao futuro. Talvez ele imagine em seus delírios que o presidente possa resolver tudo na base do voluntarismo, ou da força militar, ou outra teoria sem nenhuma plausibilidade.
Existe um nome para essa síndrome que vem fazendo o Sr. Horn e outros empresários perderem o chão da sensatez e da realidade. É a dissonância cognitiva. A teoria foi desenvolvida por Leon Festinger, professor da New School for Social Research de Nova York, para explicar a necessidade dos indivíduos de buscar uma coerência entre as suas cognições (conhecimentos, opiniões ou crenças). A dissonância cognitiva ocorre quando há uma incoerência entre o que a pessoa acredita ser o certo e o que é realmente praticado. E como muita gente resolve esse conflito interno? Deturpando a realidade para adaptá-la ou torná-la consonante com as suas opiniões ou valores.
Fonte: Os Novos Inconfidentes
Publicado em 25/06/2019 às 16:05
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